Os Paradoxos da Felicidade

janeiro 21, 2010

Existe uma área nova de pesquisas – sobre a felicidade. Considerada uma das condições mais importantes da humanidade, a felicidade quase não era seriamente estudada – até pouco tempo. Isso mudou: Ruut Veenhoven nos apresenta uma enorme bibliografia e um bem cuidado data base.

Os americanos, e não somente eles, distinguem entre dois tipos de felicidade:

  1. Felicidade através de pessoas
  2. Felicidade  através de coisas

Creio que poderíamos acrescentar uma terceira via, a felicidade através do espírito.

Como trabalhar cientificamente com um conceito tão difícil quanto a felicidade? Não há medida exata, critérios unânimes. Mas a existência de pessoas “que têm tudo para serem felizes e não o são” mostra a importância de tratar o conceito subjetivamente. Feliz é quem se considera feliz!

A auto-definição da felicidade, que pode incluir graus (muito, bastante, pouco etc.), havendo os que tentaram medí-la de maneira mais exata, com escalas de intervalo, passou a ser o conceito operacionalizável dominante. Com base nesse conceito e em medidas baseadas nele, muitas pesquisas foram realizadas nas últimas décadas.

Economistas clássicos, neo-liberais e marxistas pensam a felicidade com alguma semelhança, a partir da riqueza e dos bens à disposição de cada um. A primazia, que não se discute, é dos fatores econômicos. As brigas são internas, um grupo contra o outro.

E os dados? O que dizem os dados? Comparando países o resultado é claro para os que usam o World Value Survey: os habitantes dos países mais ricos, na média, são mais felizes e, dentro dos países, os com mais recursos também tendem a ser mais felizes. Quando comparamos um conjunto maior de países, chegamos aos mesmos resultados: há uma correlação entre a renda per capita dos países e a satisfação com a vida, por um lado, e a auto-avaliação da felicidade, pelo outro – quanto maior a renda per capita (PPP), maior a satisfação e a felicidade -  mas as correlações não são muito altas, permitindo muitos desvios.

Há problemas para generalizar:  se, tomando o mundo como um todo, a associação é válida, há regiões nas quais a associação é nula ou quase nula. A América Latina é uma delas. Entre países latino-americanos, a Argentina, com 12,704.0, tinha a renda mais elevada na época do survey; não obstante, os argentinos avaliavam a sua felicidade abaixo de sete países com renda per capita mais baixa, inclusive a Guatemala que tinha uma renda três vezes menor.

O paradoxo é ainda maior quando consideramos o crescimento econômico recente. Tomando, de cada vez, grupos de países com níveis semelhantes de renda, os que mais tinham crescido eram os que tinham populações menos satisfeitas com a própria vida. Talvez a poupança obrigatória e outros sacrifícios necessários para crescer rapidamente onerem uma parte considerável da população.

Há tetos e há mínimos: a fome conta, na direção intuitiva. Porém, a partir de um consumo mínimo de calorias e de segurança física, doses adicionais de bens materiais não aumentam muito a felicidade das pessoas.

E a duração? Quanto dura a felicidade? Larsen e McKibban concluíram que as pessoas se acostumam com os bens materiais que possuem e que, uma vez adquiridos, eles influenciam cada vez menos a felicidade. Quem quer e adquire, é feliz por pouco tempo; quem quer e não pode adquirir continua infeliz. Evidentemente, quem não quer não é infeliz…

A avaliação da felicidade varia muito menos do que a renda per capita (PPP), o que gera alguns problemas. São escalas diferentes. A renda varia muito mais do que as avaliações dos países e da própria felicidade.

O paradoxo também se aplica a áreas específicas: os mais educados, usualmente, são os mais críticos e menos satisfeitos com a qualidade da educação no país.

A distância entre os dados objetivos e as percepções subjetivas não se limitam à felicidade:  o mesmo acontece em muitas outras áreas. Vejamos a segurança: O Uruguai, o Chile, a Costa Rica e a Argentina eram os países latino-americanos com taxas mais baixas de homicídio de acordo com a pesquisa. Não obstante, suas populações estavam entre as mais insatisfeitas com o nível de segurança, crime e violência nos seus respectivos países – mais de 60% no caso da Argentina e do Uruguai.

Há, portanto, exceções, e muitas, separando os dados “objetivos” das sensações e percepções.

Problema resolvido? Longe disso. Além das muitas exceções, há outros tipos de dados que chamam a atenção para o papel de outras variáveis. Os pesquisadores irlandeses Doherty e Kelly mostram, além de uma grande variação entre os países europeus, que os jovens se consideram mais felizes, os que estão satisfeitos com sua renda estão mais felizes (há muitos com renda alta, mas que querem mais e se consideram infelizes e há muitos com renda baixa, satisfeitos com o que têm, que se consideram felizes), o desemprego também diminui a felicidade (a despeito da proteção social em muitos países europeus). A confiança nos demais e na sociedade em que vivem aumenta a felicidade e ter crenças religiosas também aumenta a felicidade, o que coloca a felicidade individual num contexto maior, social e nacional. Mas a felicidade continua sendo em boa medida, inexplicada: apenas entre uma quinta e uma quarta parte na variância entre as pessoas está explicada. E o resto? E a maior parte da variância?

Não sabemos, e não adianta chutar.

Analisando os dados de vários anos desse mesmo survey, usando uma estratégia chamada de tree analysis, surgiram coisas novas: a saúde, tal qual avaliada pelo indivíduo, era o primeiro determinante da felicidade.  Talvez muitas das influências sobre a felicidade passem pela saúde. Os idosos, com menos saúde do que os jovens, se consideram menos felizes. Definida a saúde como variável primordial, surgem duas outras, a família e a religião, que trocam de lugar na hieraquia explicativa de acordo com a saúde.

Religião? É. A grande maioria das pesquisas concluir que os religiosos são mais felizes e enfrentam melhor as agruras da vida, mas a pesquisadora canadense Sandy L. Anger. Primeiro, concluiu que a maioria da população canadense se considera “algo feliz”, “mais ou menos feliz” – não muito feliz, nem infeliz, muito ou pouco.  Uma supresa: no Canadá, as pessoas não religiosas tendem a ser um pouco mais felizes do que as religiosas, mas os religiosos praticantes são mais felizes. Isso dificulta, mas não contradiz, a explicação baseada na endogenia: as pessoas doentes e infelizes procurariam a religião. Se aceitarmos essa explicação, teremos que aceitar que as que efetivamente se integram a uma igreja e participam mais das suas atividades
mudam o seu nível de felicidade para cima. Quem frequenta mais é mais feliz. A explicação laica para esse fato se baseia no apoio social, inter-pessoal e no combate à solidão.

O estudo da felicidade é área recente, cheia de promessas e de resultados contraditórios. Uma pesquisa patrocinada pelo BID mostra uma relação entre a avaliação que a cidadania faz do país e a avaliação que ela faz de si mesma. Essa é uma área promissora de expansão: a relação entre indivíduo e sociedade, entre indivíduo e estado. Afinal, vivemos em sociedade, gerenciados, bem ou mal, por um estado.

 Gláucio Ary Dillon Soares


 

 

Pesquisadores nigerianos trouxeram mais conhecimento a respeito dos efeitos dos fatty acids Omega 3 e Omega 6 sobre o câncer da próstata que foram publicados em Ethnicity & Disease. Omega 3 reduz o risco de câncer, mas Ômega 6 aumenta. F. A. Ukoli e sua equipe do Meharry Medical College no Tennessee verificaram qual a extensão da presence desses ácidos no sangue de uma população de homens com 40 anos ou mais e relacionaram esses dados com os resultados de exames clínicos de homens com 40 anos ou mais que tinham sido admitidos na Urologia do University of Benin Teaching Hospital.
 Ordenaram os pacientes de acordo com esses ácidos, do maior para o menor, dividindo-os em quatro partes iguais, com o mesmo número de pessoas em cada parte. Essas partes são chamadas de quartís.

Os que tinham mais ácido behênico (behenic) no sangue (quartil mais alto) tinham um risco 179% mais alto de ter câncer da prostate do que os que tinham menos (quartile mais baixo); o ácido nervônico aumentava o risco, mas muito menos: 120%. Os ácidos barra-pesada são o erúcico e o araquidônico. Um quartil aumentava o risco em 320% no caso do erúcico e em 281% no caso do araquidônico (há muitas pesquisas confirmando o efeito do araquidônico)

Esses são ácidos característicos do Ômega 6.

Já os ácidos caracteríticos do Ômega 3 têm efeito contrário, positivo: o eicosapentaenóico (EPA) e o docosapentaenóico (DPA), têm o efeito contrário, positivo. Mudar um quartil (primeiro para o segundo) alterava o risco em 61% no caso do EPA e 21% no caso do DPA. Ambos ácidos estão sendo pesquisados intensamente.

Qual a relevância? Somente nos Estados Unidos, 200 mil pessoas são diagnosticadas com cancer da prostate todos os anos.

Equipes do Serviço de Inteligência (P-2) do 1º BPM(Estácio) chegaram até o local através de informações do Disque-Denúncia

Colaboração de Marcelo Fernandes

Policiais do Serviço de Inteligência (P-2) do 1º BPM (Estácio) apreenderam seis armas durante uma incursão no Morro do São Carlos, no Estácio, na Zona Norte do Rio, na manhã de ontem. A ação foi baseada em informações do Disque-Denúncia (2253-1177), que davam a localização exata do material bélico. Um veículo blindado da PM levou os agentes até o alto do morro. No momento da chegada das equipes, houve uma intensa troca de tiros com criminosos ligados à facção Amigos dos Amigos (ADA) que controlam a venda de drogas na região. Apesar do confronto, ninguém ficou ferido. Segundo a Polícia, o grupo era composto por cerca de 15 bandidos, que tentavam proteger o esconderijo das armas e fugiram após o tiroteio.

Na localidade conhecida como Macaco, perto de uma lixeira, os PMs encontraram o ponto onde as armas estavam enterradas. No total, foram apreendidos um fuzil 762, um fuzil AK- 47, uma submetralhadora nove milímetros, uma carabina calibre 12 e duas pistolas 45. De acordo com um dos policiais, os traficantes teriam mais armas do que pessoas para utilizá-las. – Está faltando pessoal, então eles (os traficantes) escondem as armas que não têm ninguém para usar. Os fuzis, por exemplo, são de difícil manuseio para um menor, pois eles são bem pesados – explicou um PM que participou da ação.

O material apreendido foi levado para a 6ª DP (Cidade Nova), onde foi feito o registro. De acordo com a Polícia, o tráfico de drogas do Morro do São Carlos é controlado por Anderson Rosa Mendonça, o Coelho, 29 anos, e pelo seu braço-direito, Rogério Rios Mosqueira, o Roupinol, 37. Contra eles, existem mandados de prisão por tráfico e homicídios.

Zeca Borges

A última pesquisa entre adolescentes feita pelo The National Center on Addiction and Substance Abuse (CASA*) na Columbia University revelou que um entre cada três jovens (de 12 a 17) afirmou já terem bebido e um em cada quatro afirmou tê-lo feito no último mês. Dos que já haviam bebido, 17% afirmaram que bebiam para ficar de porre. Felizmente, a maioria (68%) não tinha esse objetivo.Por que felizmente?

Porque muitos estudos mostram que beber até ficar bêbado é um comportamento relacionado à violência, aumentando o risco de ter (e usar) armas de fogo, de acidentes, letais e não letais, de homicídios e de suicídios.

O exemplo conta: os que viram pai e/ou mãe bêbados tinham o dobro do risco de terem estado bêbados.

Sobre o Pronasci

dezembro 23, 2009

PRONASCI

 

Há 40 anos, as principais estratégias de segurança pública para combater o crime são a repressão e o aparelhamento da polícia. A valorização do profissional de segurança pública sempre esteve em segundo plano, até agora!

Desenvolvido pelo Ministério da Justiça, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania –PRONASCI – articula os governos federal, estadual, municipal e a população para integrar políticas de segurança pública e a ações sociais.

Os profissionais de segurança pública também têm papel de destaque no programa.Dentre os 94 projetos, estão iniciativas desenvolvidas especificamente para o setor dos profissionais da segurança pública, visando valorizar e estimular os profissionais para uma ação mais cidadã.

Conheça alguns dos projetos desenvolvidos, para você, profissional tão importante para a segurança pública nacional:

Bolsa Formação – Os profissionais receberão novos estímulos para estudar e atuar junto às comunidades. Policiais civis e militares, bombeiros, peritos e agentes penitenciários de baixa renda terão acesso a uma bolsa de até R$ 400,00.

Formação Policial - A qualificação das polícias inclui práticas de segurança-cidadã, como a utilização de tecnologias não letais, técnicas de investigação, sistema de comando de incidente, perícia balística, DNA forense, medicina legal, direitos humanos, entre outros. Os cursos serão oferecidos pela Rede Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (Renaesp), e ainda em tele centros para educação à distância.

Plano Nacional de Habitação para Profissionais de Segurança Pública - A categoria também poderá contar com o Plano Nacional de Habitação para Profissionais de Segurança Pública, com o apoio da Caixa Econômica Federal. Serão disponibilizadas unidades populares para servidores de baixa renda, que recebam até quatro salários mínimos e a cartas de crédito para a compra da casa própria, no valor de até R$ 50 mil, para aqueles que recebam até R$ 4,9 mil.

Lei Orgânica das Polícias Civis - A legislação vai unificar estrutura, funções e procedimentos das polícias civis de todo o país, promovendo a padronização da  corporação.

Para garantir a realização das ações no país serão celebrados convênios, contratos, acordos e consórcios com estados, municípios, organizações não-governamentais e organismos internacionais.

Confira mais informações no http://www.mj.gov.br/pronasci

 

, inclusive animações super bacanas com depoimentos de quem já vivenciou as vantagens do projeto.

Se você gosta de estar antenado por dentro do que acontece minuto a minuto siga-nos no twitter : twitter.com/pronasci

 

.  Mas se você prefere fotos: flickr.com/photos/pronascibrasil

 

, ou gosta mesmo é de ação? http://www.youtube.com/pronasci

 

.

Não importa, O PRONASCI criou vários canais para que você possa estar por dentro de tudo que envolve o que consideramos mais importante: Você!

logo_ProNasci.jpg logo_ProNasci.jpg
51K   Visualizar   Baixar  
opcao-02.jpg opcao-02.jpg
35K   Visualizar   Baixar  

Paradas cardíacas

dezembro 22, 2009

Foi preciso que uma atriz linda e razoavelmente famosa morresse para que a mídia se lembrasse de que muitos jovens morrem de parada cardíaca. Ela morreu aos 32.
Paradas cardíacas súbitas matam perto de 400 mil ao ano somente nos Estados Unidos; destes, 4 mil são jovens.

Está ficando pior: CDC informa que houve um aumento de dez por cento numa década (1986 a 1996) em pessoas com idade de 15 a 35, mas o aumento em mulheres jovens foi de trinta por cento.
As paradas cardíacas súbitas em pessoas jovens usualmente têm causas genéticas. As arritmias genéticas com freqüência não são adequadamente diagnosticadas entre os jovens. Uma fundação, a The Heart Rhythm Foundation afirma que muitas dessas vítimas tinham problemas cardíacos não diagnosticados. Não sabiam que tinham. As paradas cardíacas deixam pouco tempo para ações salvadoras. Existe um aparelho chamado de desfibrilador que dá um choque na vítima e, com alta freqüência, a salva, mas tem que usado poucos minutos depois do ataque. Mais do que seis minutos levam a dano cerebral permanente; poucos escapam com vida depois de dez minutos.
O coração tem um ritmo normal, chamado de normal sinus, e o desfibrilador faz com que o coração volte a bater normalmente. Os problemas de fibrilação são chamados sinteticamente de A-fib. É algo que conheço bem pois sofro deste mal há mais de duas décadas. Recentemente fiz uma ablação cardíaca exitosa para corrigir um outro problema, chamado de A-flutter. Depois da ablação, há seis meses, o A-flutter não apareceu mais e o A-fib melhorou. Estilos de vida influenciam o risco de várias doenças, inclusive a parada cardíaca, entre eles o uso de drogas e traumas. A aterosclerose em duas artérias coronárias ou mais está presente em noventa por cento das pessoas que sofrem de parada cardíaca. Comer muito e mal aumenta, e muito, o risco de parada cardíaca. O exercício regular e orientado reduz o risco. Assim, a parada cardíaca está associada com o estilo de vida da pessoa, como tantas outras doenças do aparelho cardio-circulatório.

Morrer aos 32

Crianças ou monstrinhos?

dezembro 16, 2009

Uma revista cientifica, The Journal of Child Psychology and Psychiatry publicou um artigo que conclui que nada menos de 98% das crianças com menos de dez anos de idade são sociopatas por critérios adultos. Não sentem remorso e se dedicam aos seus interesses egocêntricos e ao seu prazer.

Quem afirma isso é  Leonard Mateo, da University of Minnesota da corrente chamada de Psicologia Evolutiva que propõe a existência de mudanças significativas no comportamento social durante as várias etapas da vida. O comportamento social e o altruísmo seriam desenvolvidos não nasceríamos com eles. Crianças usariam e explorariam os adultos sem qualquer remorso para obter uma gratificação, seja um brinquedo ou um sorvete. De acordo com Mateo, essa “desordem social” é marcada por uma total falta de empatia e que crianças e jovens adolescentes se dedicam a satisfazer suas necessidades e buscam apenas seu prazer sem preocupação com o mal que podem causar a outros.

Há um teste chamado de Hare Psychopathy Checklist que é usado clinicamente para diagnosticar a psicopatia que acessa quatro importantes dimensões dessa doença mental: procuram parecer agradáveis, simpáticos e preocupados com os demais; comportamentos manipuladores; um sentimento de que são importantes e grandiosos, sem qualquer relação com a realidade e mentir patologicamente, que é o comportamento que usualmente “entrega” os psicopatas adultos. As crianças e jovens adolescentes saem mal neles.

Os pesquisadores observaram 700 crianças no seu quotidiano, concluindo que 684 exibiam esses comportamentos num, nível considerado sério. Outros comportamentos, que caracterizam as desordens anti-sociais estavam presentes: violência, incapacidade de planejar, pouco controle de seus próprios impulsos e, quando seus desejos não eram satisfeitos, tantrums (como se jogar no chão e ficar dando murros ou batendo com a cabeça no assoalho).

É um vale-tudo. Cansam rapidamente de uma coisa e passam para outra, mas a única preocupação é consigo. Mateo também afirmou que as crianças tinham uma capacidade limitada de aceitar a culpa e expressá-la e que não iam mais alem de um pedido insincero de desculpas, que raramente era espontâneo e tinham que ser “extraídos”.

A preocupação de Mateo é com os danos que esses comportamentos causam a outras crianças e a adultos. As avós seriam especialmente suscetíveis aos comportamentos manipuladores de nossos pequenos sociopatas.

É possível ver que essa pesquisa causou celeuma. Se, por um lado, ninguém duvida de que as crianças sejam diferentes dos adultos, nosso amor pelas crianças da família, particularmente filhos e filhas e netos e netas nos impede de observar objetivamente seu comportamento. Numa creche ou num orfanato, esses comportamentos são observáveis e claros – a violência é comum. Impera a lei do mais forte.

As reações foram variadas, mas quase sempre negativas. Evidentemente, os que acreditam que as crianças nascem puras e se “prostituem” ou deterioram a partir da infância têm uma visão oposta: a socialização adulta corrompe a pureza infantil e transforma anjinhos, que são as crianças, em monstros, que são os adultos.

Para outros, usando também dados de pesquisas físicas sobre a maturação cerebral (não nascemos com o cérebro completo: ele vai se desenvolvendo), é um processo biológico com profundas implicações sociais e criminais. A interrupção da maturação do cérebro é que explicaria a proclividade de adolescentes e jovens adultos a comportamentos delinqüentes e criminais.

A psicologia social e a sociologia também vêem esses comportamentos, mas definem suas mudanças como aprendidas. Autocontrole (por exemplo: da violência) seria aprendido. O crime e a delinqüência resultariam dos fracassos na aprendizagem.

Admito que, quando temos filhos e netos, consideramos esses resultados difíceis de digerir e até de serem analisados imparcialmente.

É uma área explosiva do conhecimento. Afinal, redefinir nossos filhos e netinhos como sociopatas é, primeiro, ofensa e, depois, possível verdade científica.

Os Desaparecidos

dezembro 13, 2009

(publicado n’O GLOBO de 13 de novembro de 2009)
Os Desaparecidos
Há perto de um ano, a sociedade civil organizada se inquietou a respeito dos desaparecimentos no Estado do Rio de Janeiro. Justificadamente assustada com o número, que parecia altíssimo, fez críticas duras ao governo com grande repercussão dentro e fora do Brasil. Os dados existentes eram muito ruins, com muitas falhas. O Instituto de Segurança Pública, que é o órgão responsável pelas pesquisas, análises criminais e capacitação profissional no estado do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Segurança, convidou pesquisadores para ver como saber mais, como responder às perguntas e às justas críticas. Surgiu a idéia de realizar uma pesquisa. Era necessária. Quem eram os desaparecidos? Não se sabia. Quantos reapareciam? Não se sabia. Eram homicídios? Não se sabia. Foi o desconhecimento e a má qualidade dos dados existentes que levou à realização de uma pesquisa sobre os desaparecimentos. Como consultor pro-bono, propuz realizar várias pesquisas menores, mais baratas, em seqüência, além de refinar a base de dados existente, que tem muitas deficiências. Para saber se eram homicídios, comparamos os perfis das vítimas de homicídios com o dos desaparecidos. O passo seguinte, em andamento, é baseado em entrevistas com as pessoas que registraram os desaparecimentos. O terceiro aproveitará outra pesquisa, maior, adicionando perguntas para estimar quantos são os desaparecimentos não registrados. Existem, mas não sabemos quantos são.
A notícia de que havia uma pesquisa sobre desaparecidos, realizada pelo ISP, gerou muitas especulações. As mais radicais afirmavam que muitos, talvez a maioria, eram vítimas de homicídios, cujos corpos não tinham sido encontrados. Essa hipótese, baseada em chute, é errada.
Desaparecimentos e homicídios não são farinha do mesmo saco. A análise de perfís não deixa dúvida: a predominância dos homens é muito maior entre as vítimas de homicídios: 92% vs 62% entre os desaparecidos. As mulheres representam menos de 10% das vítimas de homicídios, mas representam quatro de cada dez desaparecimentos registrados.
A idade também demonstra um perfil muito diferente: em comparação com as vítimas de homicídios: crianças e adolescentes, por um lado, e idosos, pelo outro, são muito mais freqüentes entre os desaparecidos. Há mais desaparecidos nas pontas da idade, entre os muito jovens e os idosos. É um perfil que bate com o de outros países, onde também há muitas crianças e idosos entre os “desaparecidos”. No Rio de Janeiro, os desaparecimentos são registrados pelos pais ou responsáveis, mas os reaparecimentos não. E as crianças estão brincando em casa, mas permanecem no registro dos desaparecidos. Na pesquisa que oriento apareceram muitos casos deste tipo.
Do outro lado da distribuição por idades, a percentagem de desaparecidos cresce depois dos 60 anos, em contraste com o que acontece na população porque as taxas de mortalidade aumentam e quanto maior a idade menor a percentagem sobre o total de pessoas. Os idosos representam 3% da população e 13% dos desaparecidos. Por que cresce a percentagem de desaparecidos nas idades mais avançadas? Por um lado, elas refletem a influência de doenças degenerativas, como a demência e o mal de Alzheimer; pelo outro, elas refletem a dramática perda de status que acompanha as idades avançadas, tanto na sociedade quanto na família. Perdem autonomia, passam a requerer cuidados, mas não há recursos financeiros ou emocionais para cuidá-los bem, alguns começam a vagar pelas ruas e são dados como desaparecidos. Não sabemos tratar nossos idosos – é um problema de direito próprio.
Dados de vários surveys mostraram o tremendo desprestígio das instituições públicas (federais, estaduais e municipais) no Brasil, o que pode fazer com que muitos não relatem os desaparecimentos. É a cidadania amedrontada, encolhida. A redução da cidadania, no Brasil, também se faz sentir na baixíssima percentagem dos que relataram desaparecimentos que se dão ao trabalho de informar o reaparecimento: menos de 2%! A explicação pode residir parcialmente na dificuldade das relações com a polícia, no medo da polícia, e também pode residir parcialmente no clientelismo tradicional de uma cultura política que enfatiza direitos e não deveres, doações de cima e não conquistas de baixo. A cifra é real: 2%; as explicações são, apenas especulações que parecem sensatas. Reitero que esses mesmos fatores podem fazer com muitos desaparecimentos não sejam comunicados às autoridades. Não obstante, entre os que o foram, a grande maioria reapareceu: a pesquisa direta, feita com uma amostra dos que registraram os desaparecimentos, revela que 86% dos desaparecidos tinham reaparecido!
As notícias sobre os desaparecimentos suscitaram outra interpretação errada: os desaparecimento seriam um fenômeno do nosso estado ou, pelo menos, do nosso país. Não é assim. Os desaparecimentos são muito comuns em outros países: na Austrália, cada 15 minutos é registrado um desaparecimento, que totalizam 35 mil pessoas por ano (Missing Persons in Australia 2008).  Noventa e cinco por cento reaparecem em pouco tempo, uma semana. A população da Austrália é de 21 milhões de pessoas. Na Nova Zelândia, a polícia registra oito mil pessoas como desaparecidas por ano. A população na Nova Zelândia é apenas quatro milhões e duzentas mil. O Rio de Janeiro tem perto de 15 milhões e menos de cinco mil desaparecidos. A taxa de desaparecidos na Austrália é de 167 por cem mil;  é de 190 por cem mil na Nova Zelândia e, no Rio de Janeiro, arredondando, ela é de 33 por cem mil.  As taxas são muito mais altas na Austrália e na Nova Zelândia. Porém, isso não significa que realmente desapareçam muito mais pessoas na Austrália e na Nova Zelândia, mas que a população australiana e a neozelandesa relatam os desaparecimentos em maior número e mais rapidamente.
As lições dessa pesquisa, e dos números que ela produziu, vão além da descrição e das explicações para os desaparecimentos. As reações negativas aos primeiros resultados foram além da realidade. Mostraram que o imaginário da mídia e da população é pior do que a própria realidade que é, reconhecidamente, muito ruim. Num cenário em que as instituições públicas estão desacreditadas, exageramos o pessimismo das nossas interpretações.
Sou um dos poucos otimistas que a onda pessimista não afogou. Considero que a própria realização de uma pesquisa em área tão sensível revela um desejo de acertar. Valorizo o fato de que, em parte, a pesquisa foi uma resposta positiva às pressões da sociedade civil. Seus primeiros resultados dissolveram nossos maiores medos. Se buscarmos, veremos que há muitas iniciativas positivas variadas em vários pontos do país. O Brasil tem jeito!
Gláucio Ary Dillon Soares
Os desaparecidos
crianças desaparecidas, desaparecidos, desaparecimentos, homicídios no rio de janeiro, idosos desaparecidos

(publicado n’O GLOBO de 13 de novembro de 2009)

Os Desaparecidos
Há perto de um ano, a sociedade civil organizada se inquietou a respeito dos desaparecimentos no Estado do Rio de Janeiro. Justificadamente assustada com o número, que parecia altíssimo, fez críticas duras ao governo com grande repercussão dentro e fora do Brasil. Os dados existentes eram muito ruins, com muitas falhas. O Instituto de Segurança Pública, que é o órgão responsável pelas pesquisas, análises criminais e capacitação profissional no estado do Rio de Janeiro, vinculado à Secretaria de Segurança, convidou pesquisadores para ver como saber mais, como responder às perguntas e às justas críticas. Surgiu a idéia de realizar uma pesquisa. Era necessária. Quem eram os desaparecidos? Não se sabia. Quantos reapareciam? Não se sabia. Eram homicídios? Não se sabia. Foi o desconhecimento e a má qualidade dos dados existentes que levou à realização de uma pesquisa sobre os desaparecimentos. Como consultor pro-bono, propuz realizar várias pesquisas menores, mais baratas, em seqüência, além de refinar a base de dados existente, que tem muitas deficiências. Para saber se eram homicídios, comparamos os perfis das vítimas de homicídios com o dos desaparecidos. O passo seguinte, em andamento, é baseado em entrevistas com as pessoas que registraram os desaparecimentos. O terceiro aproveitará outra pesquisa, maior, adicionando perguntas para estimar quantos são os desaparecimentos não registrados. Existem, mas não sabemos quantos são. A notícia de que havia uma pesquisa sobre desaparecidos, realizada pelo ISP, gerou muitas especulações. As mais radicais afirmavam que muitos, talvez a maioria, eram vítimas de homicídios, cujos corpos não tinham sido encontrados. Essa hipótese, baseada em chute, é errada. Desaparecimentos e homicídios não são farinha do mesmo saco. A análise de perfís não deixa dúvida: a predominância dos homens é muito maior entre as vítimas de homicídios: 92% vs 62% entre os desaparecidos. As mulheres representam menos de 10% das vítimas de homicídios, mas representam quatro de cada dez desaparecimentos registrados. A idade também demonstra um perfil muito diferente: em comparação com as vítimas de homicídios: crianças e adolescentes, por um lado, e idosos, pelo outro, são muito mais freqüentes entre os desaparecidos. Há mais desaparecidos nas pontas da idade, entre os muito jovens e os idosos. É um perfil que bate com o de outros países, onde também há muitas crianças e idosos entre os “desaparecidos”. No Rio de Janeiro, os desaparecimentos são registrados pelos pais ou responsáveis, mas os reaparecimentos não. E as crianças estão brincando em casa, mas permanecem no registro dos desaparecidos. Na pesquisa que oriento apareceram muitos casos deste tipo.Do outro lado da distribuição por idades, a percentagem de desaparecidos cresce depois dos 60 anos, em contraste com o que acontece na população porque as taxas de mortalidade aumentam e quanto maior a idade menor a percentagem sobre o total de pessoas. Os idosos representam 3% da população e 13% dos desaparecidos. Por que cresce a percentagem de desaparecidos nas idades mais avançadas? Por um lado, elas refletem a influência de doenças degenerativas, como a demência e o mal de Alzheimer; pelo outro, elas refletem a dramática perda de status que acompanha as idades avançadas, tanto na sociedade quanto na família. Perdem autonomia, passam a requerer cuidados, mas não há recursos financeiros ou emocionais para cuidá-los bem, alguns começam a vagar pelas ruas e são dados como desaparecidos. Não sabemos tratar nossos idosos – é um problema de direito próprio.Dados de vários surveys mostraram o tremendo desprestígio das instituições públicas (federais, estaduais e municipais) no Brasil, o que pode fazer com que muitos não relatem os desaparecimentos. É a cidadania amedrontada, encolhida. A redução da cidadania, no Brasil, também se faz sentir na baixíssima percentagem dos que relataram desaparecimentos que se dão ao trabalho de informar o reaparecimento: menos de 2%! A explicação pode residir parcialmente na dificuldade das relações com a polícia, no medo da polícia, e também pode residir parcialmente no clientelismo tradicional de uma cultura política que enfatiza direitos e não deveres, doações de cima e não conquistas de baixo. A cifra é real: 2%; as explicações são, apenas especulações que parecem sensatas. Reitero que esses mesmos fatores podem fazer com muitos desaparecimentos não sejam comunicados às autoridades. Não obstante, entre os que o foram, a grande maioria reapareceu: a pesquisa direta, feita com uma amostra dos que registraram os desaparecimentos, revela que 86% dos desaparecidos tinham reaparecido! As notícias sobre os desaparecimentos suscitaram outra interpretação errada: os desaparecimento seriam um fenômeno do nosso estado ou, pelo menos, do nosso país. Não é assim. Os desaparecimentos são muito comuns em outros países: na Austrália, cada 15 minutos é registrado um desaparecimento, que totalizam 35 mil pessoas por ano (Missing Persons in Australia 2008).  Noventa e cinco por cento reaparecem em pouco tempo, uma semana. A população da Austrália é de 21 milhões de pessoas. Na Nova Zelândia, a polícia registra oito mil pessoas como desaparecidas por ano. A população na Nova Zelândia é apenas quatro milhões e duzentas mil. O Rio de Janeiro tem perto de 15 milhões e menos de cinco mil desaparecidos. A taxa de desaparecidos na Austrália é de 167 por cem mil;  é de 190 por cem mil na Nova Zelândia e, no Rio de Janeiro, arredondando, ela é de 33 por cem mil.  As taxas são muito mais altas na Austrália e na Nova Zelândia. Porém, isso não significa que realmente desapareçam muito mais pessoas na Austrália e na Nova Zelândia, mas que a população australiana e a neozelandesa relatam os desaparecimentos em maior número e mais rapidamente.  As lições dessa pesquisa, e dos números que ela produziu, vão além da descrição e das explicações para os desaparecimentos. As reações negativas aos primeiros resultados foram além da realidade. Mostraram que o imaginário da mídia e da população é pior do que a própria realidade que é, reconhecidamente, muito ruim. Num cenário em que as instituições públicas estão desacreditadas, exageramos o pessimismo das nossas interpretações. Sou um dos poucos otimistas que a onda pessimista não afogou. Considero que a própria realização de uma pesquisa em área tão sensível revela um desejo de acertar. Valorizo o fato de que, em parte, a pesquisa foi uma resposta positiva às pressões da sociedade civil. Seus primeiros resultados dissolveram nossos maiores medos. Se buscarmos, veremos que há muitas iniciativas positivas variadas em vários pontos do país. O Brasil tem jeito!
Gláucio Ary Dillon Soares


Republico esse trabalho porque traz notícias alvissareiras sobre um estado que passou muitos anos sem conseguir reduzir suas taxas de homicídio de maneira consistente

Gláucio Ary Dillon Soares


Tiros certeiros na violência

Publicado em 06.12.2009

Estado atingiu marca inédita: 12 meses seguidos de redução na taxa de assassinatos. Instituição de metas e cobranças para policiais integram a fórmula

Autor: Eduardo Machado

eduardomaxado@gmail.com


O delegado Moari Pimenta e os majores José Teles e José Barros são os funcionários do mês de outubro da Secretaria de Defesa Social (SDS). Responsáveis pela área integrada de segurança 25 (AIS-25), que compreende os municípios de Cabrobó e Santa Maria da Boa Vista, no Sertão, o delegado seccional e os dois oficiais, comandantes das companhias da PM da região, conseguiram reduzir o número de homicídios na área em 80%, em comparação com outubro do ano passado. Ganharam destaque no site da SDS encabeçando a lista dos gestores mais eficientes no enfrentamento da violência. A queda no número de crimes violentos letais intencionais (soma dos homicídios dolosos, latrocínios e lesões corporais seguidas de mortes) não se limitou ao Sertão. Espalhou-se por todo o Estado e atingiu no mês passado uma marca inédita: doze meses seguidos de diminuição, chegando a 12,3% de recuo com relação ao período anterior.

Medir o trabalho dos policiais e destacar os eficientes é apenas uma das estratégias de gestão implantadas pelo Governo do Estado na Secretaria de Defesa Social que estão sendo eficientes na diminuição da criminalidade. Vários personagens de fora das corporações policiais precisaram entrar em cena para que essa mudança se concretizasse. O primeiro é o próprio governador Eduardo Campos, que assumiu pessoalmente a coordenação do processo. O secretário de Planejamento, Geraldo Júlio, atuou como gestor do Pacto pela Vida porque tem autoridade para cobrar ações não só da SDS, mas de todas as outras pastas envolvidas na melhoria da segurança pública. Já o professor José Luiz Ratton, assessor especial do governador, teve importância fundamental na definição das bases para uma nova política de enfrentamento da criminalidade.

Até mesmo uma empresa de consultoria (Instituto de Desenvolvimento Gerencial) trabalhou no estudo, diagnóstico e planejamento para desatar os nós da administração no que se refere à Segurança Pública. A sacudida gerencial permitiu que o delegado sertanejo e seus colegas oficiais pudessem ser avaliados, medidos e destacados como forma de incentivo.

REVIRAVOLTA

Na década de 90, a cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, experimentou uma reviravolta no combate à violência com armas semelhantes. A face mais conhecida do programa, implementado pelo então prefeito Rudolph Giuliani, era a chamada Tolerância Zero contra o crime. No entanto, o mérito real estava no Compstat ou estatística computadorizadas. Um sistema muito parecido com o em uso em Pernambuco de acompanhamento e avaliação do desempenho policial por meio de índices criminais.

Apesar dos bons resultados no último ano, ainda há um longo caminho para que a população pernambucana possa sentir uma melhoria na segurança pública. O Estado de São Paulo completa este ano uma década de números de homicídios em queda. Mesmo assim, o medo da criminalidade ainda é uma realidade para a sociedade paulista.

“Estamos há quase uma década com reduções expressivas nos homicídios. No entanto, a sensação de melhoria na segurança ainda permanece mais restrita às áreas de periferia. Nas regiões de classe média, onde o maior problema sempre foram os crimes contra o patrimônio, o avanço tem maior dificuldade em ser percebido pelas pessoas”,

avaliou o pesquisador e chefe da Coordenadoria de Análise e Planejamento da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, Túlio Kahn.

Câncer e suicidio

dezembro 10, 2009

Todo cuidado é pouco.  O diagnóstico de câncer da próstata pode aumentar o risco de suicídio. Esse tipo de pesquisa só poderia ser feito num país com um sistema estatístico que permitisse  juntar num só banco de dados os pacientes diagnosticados, subdivididos pela agressividade do câncer, dados sobre a população geral e dados sobre os suicídios. Foi feita na Suécia, um país com excelentes estatísticas. Foi feito pelos Department of Urology, University Hospital, em Uppsala, e o Department of Clinical Cancer Epidemiology, Karolinska Institute, em Estocolmo. O risco de suicídio é mais alto em pacientes com câncer do que em populações semelhantes, mas sem câncer. Essa generalização se aplica aos pacientes de câncer da próstata.

Porém, os pacientes de câncer da próstata não são todos iguais. Há pacientes com cânceres lentos que, talvez, não precisem qualquer tratamento, nada além de um acompanhamento para garantir que o câncer continua lento, e há pacientes com cânceres mais agressivos que são uma ameaça real à vida.

Pesquisadores na Suécia dispõem de um data base sobre câncer de próstata, o PCBaSe. Quem foi diagnosticado está nele. Os pesquisadores tomaram os cânceres diagnosticados de 1º de janeiro de 1997 a 31 de dezembro de 2006. Excluíram as mulheres e controlaram por idade. Houve 128 suicidios nos mais de 77 mil casos de CPa (câncer da próstata). O número esperado, com base na população semelhante quanto ao gênero e idade, mas sem câncer, seria 85. Os homens com cânceres menos agressivos tinham a mesma taxa que os homens sem câncer, mas os homens com cânceres localizados, mas agressivos, e os com metástase distante tinham um risco de suicídio que era mais do dobro do risco da população controle. Não foram controladas a comorbidade e as doenças mentais pré-existentes.

A política oficial e não oficial seguida pelos médicos varia de país para país. Nos Estados Unidos a lei define que o paciente tem o direito de saber; no Brasil são freqüentes os casos em que a família e o médico entram em conluio para não dar essa informação ao paciente, achando que o ele “não deve” saber. É uma postura extremamente autoritária da sociedade. Onde há uma política dos direitos dos pacientes, que inclui o direito de saber, o médico que não transmitir a informação ao seu dispor ao paciente poderá ser processado, tanto criminalmente, quanto civilmente.

Eu cresci achando que câncer era uma sentença de morte, usualmente em pouco tempo. Era uma crença estatisticamente furada naquele tempo e, hoje, é mais furada ainda porque as taxas de sobrevivência aumentaram em dois sentidos – maior percentagem de pessoas sobrevive e acaba morrendo de outras causas e, entre os que morrem daquele câncer, o tempo até a morte aumentou muito.

Esses dados devem ser explicados ao paciente desde o inicio. Meu cirurgião e urólogo achava pouco provável que eu morresse daquele câncer, mas acrescentou que, se acontecesse, seria depois de muitos anos. A perspectiva de viver muitos anos ainda e a fé na ciência reduzem o pânico provocado pelo diagnóstico.

Escrito por Bill-Axelson A, Garmo H, Lambe M, Bratt O, Adolfsson J, Nyberg U, Steineck G, Stattin P. e publicado em  Eur Urol. 2009 Nov 10.