Este artigo foi publicado no Correio Braziliense de 13 de setembro de 2007.

Um estudo de 61 assassinos múltiplos na Alemanha elimina velhos mitos. Para começar, mostra que pesquisadores acadêmicos e pesquisadores policiais podem trabalhar juntos. Mostra, também, que assassinos múltiplos não são uma patologia tipicamente americana. A pesquisa, realizada com os condenados entre 1945 e 1995, comparou os assassinos múltiplos com homicidas comuns. Em que mais os assassinos em série diferem dos assassinos singulares, comuns, além de terem matado mais de duas pessoas? São dois perfis psicológicos muito diferentes. Uma percentagem muito mais alta dos assassinos múltiplos apresenta desordens de personalidade, anomalias cerebrais e premeditação. Em contraste, há uma percentagem bem maior de assassinos que “explodem” entre os que mataram uma pessoa só.

Há diferenças no que concerne a relação entre o assassino e a vítima: os assassinos em série raramente conheciam as vítimas e tinham algum tipo de relação com elas.

Porém, os assassinos em série tão pouco são iguais. Os com uma clara dimensão sexual eram minoritários (36%) e diferentes dos demais.

A polícia alemã é muito eficiente: 91% de todos os casos de homicídio foram resolvidos. No que concerne assassinatos múltiplos, a percentagem é um pouco mais baixa, 83%. Não obstante, eles continuam sendo um desafio para a polícia porque em mais de dois terços dos casos o assassino foi preso devido a alguma informação dada pelo público, à sorte ou, em raras ocasiões, o assassino se entregou. O judiciário é mais inoperante e leniente do que a polícia, pois condenou apenas 56% dos serial killers sexuais. O contraste com o Brasil é grande; não obstante, a população alemã acha absurdo que um em cada cinco assassinatos em série fique sem solução e que um em cada três não cumpra pena.

A amostra se refere apenas aos que foram condenados. As fontes são secundárias: os arquivos da promotoria, as decisões judiciais e relatórios psiquiátricos e psicológicos. Além disso, oito assassinos foram entrevistados e os pesquisadores mantiveram correspondência com dez.

Os assassinos em série não são sempre homens. Havia sete mulheres. O número médio de pessoas mortas foi de pouco mais de cinco, havendo um caso de 16.

Um mito sobre serial killers se refere à inteligência e à escolaridade: os assassinos em série alemães estão longe da genialidade que os desinformados lhes atribuem: 39% deles estão ligeiramente acima da média da população, mas foram os menos inteligentes que deram mais trabalho à polícia, que gastou mais do dobro do tempo com eles até apreendê-los: oito anos e três meses (também na média). Já os com inteligência acima de 100 foram presos, na média, quatro anos e dois meses depois da primeira morte.

Há dados que abrem uma linha de teorização: os assassinos em série fracassaram na escola e no trabalho. Dois de cada três tinham um histórico escolar muito ruim, quatro em dez foram reprovados e quatro em dez saíram cedo da escola. A combinação entre inteligência ligeiramente acima da média e educação bastante abaixo da média parece ser propícia aos assassinos em série. A desintegração social também é relevante: 85% eram isolados, desintegrados do mundo. Disfunções com a família estavam presentes em 89% dos casos. Pais incompetentes, violentos e pouco amorosos são comuns.

Os assassinos múltiplos começam cedo: três em quatro mataram pela primeira vez antes dos 30 anos, mas a variabilidade é grande, dos 14 aos 53. Na média, tinham 27 anos e meio quando mataram pela primeira vez.

Os pesquisadores encontraram oito características estatisticamente significativas que diferenciam assassinos “simples” de assassinos múltiplos, começando pelas desordens da personalidade. Pessoas “normais” ocasionalmente são assassinas simples, mas apenas 11% dos assassinos múltiplos eram candidatos à normalidade.

A condição emocional, no momento do crime, era outra diferença: mais da metade dos assassinos simples mataram numa explosão (de raiva, ódio, ciúme etc.), mas somente um de cada vinte e cinco assassinos múltiplos matou porque estava fora de controle.

Quatro em cinco dos assassinos simples tinham algum tipo de relação com a vítima (parentes, amigos, conhecidos, colegas de trabalho etc.), o oposto dos assassinos em série.

As motivações sexuais estavam presentes em apenas 3% dos assassinos simples, em contraste com 41% dos múltiplos
; as motivações financeiras são especialmente comuns entre mulheres assassinas múltiplas. Trinta e seis por cento de todos os assassinos múltiplos tinham motivações financeiras, em contraste com 11% dos assassinos simples.

Muitas diferenças confirmam o encontrado em outras pesquisas, realizadas em outros países, que estão descritas em http://conjunturacriminal.blogspot.com

Os rampage killers diferem dos demais assassinos múltiplos porque eles se suicidam ou tentam. Os demais, não.

Stephan Harbort, trabalha na polícia e Andreas Mokros numa universidade. Juntos, pesquisaram e avançaram o conhecimento sobre assassinos múltiplos – na Alemanha e em geral. Essa colaboração é difícil no Brasil, onde há uma barreira, ranço da ditadura, que separa polícia e universidade.

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