O que pensam os brasileiros sobre o filme A Elite da Tropa? Para ter uma idéia li as 68 cartas de leitores sobre o debate a respeito do filme. Fiquei tão chocado que resolvi analisá-las. Fiquei mais chocado.
As críticas são, com freqüência, ad hominem. Focalizam quem diz ou escreve, e não o que é dito ou escrito. Um esforço é feito para desqualificar a pessoa, para demonstrar que ela não tem a qualificação necessária para saber.
Daniel Alarcón um escritor peruano que vive nos Estados Unidos foi convidado para um debate e classificou o filme como fascista. Provocou celeuma. Muitos não gostaram. Como desqualificá-lo? Numa cultura autoritária, com mais de uma pitada de xenofobia, se sublinha o fato de que é peruano. Esse atributo foi mencionado 16 vezes, ao passo que temas do filme, como tráfico, traficante, traficantes (lemma trafic*) foram mencionados 18. Outro lemma importante para o conteúdo do filme inclui polícia, policial e policiais (polic*) também foi mencionado 18 vezes. A diferença é pequena e não é estatisticamente significativa [i]. Isso nos informa que, para os leitores, a nacionalidade do crítico é tão importante quanto os temas do filme.
Alarcón é peruano. E daí?
A Análise de Correspondência mostra a tentativa de desqualificar Alarcón porque não é brasileiro: “[quem]esse estrangeiro pensa que é para definir para nós brasileiros o que é bom ou não?”. “É engraçado como um peruano que vive nos EUA (que ele tanto critica) ousa criticar algo…”. Alguns são francamente ofensivos e preconceituosos: “É isso que dá o Brasil dar espaço a cucarachas”. Ou, então, “esse Alarcon tem o maior jeito de ser o perfeito idiota latino-americano.” Ou mais: “Melhor maneira de se perpetuar o complexo de vira-latas brasileiro: um “escritor peruano” dar palpite e isso virar manchete.”
O Peru não é a única referência nacional-espacial, os EUA foram mencionados nove vezes. Quase tantas quanto o BOPE, tema central do filme.
A Análise de Espaços (collocates) mostra a vinculação entre o critério de exclusão (ser peruano) e o que é considerado importante – “entender” o fenômeno. Ela fica patente em algumas citações: “…o peruano pode até entender de literatura, mas não entende NADA de cinema!” A vinculação entre o “entender” e o nascimento/residência é clara e repetitiva: “O que este senhor entende sobre a realidade Brasileira?” “Esse tal de Daniel realmente não entende nada de Brasil, desconhece a realidade do Rio”. Sem falar no primor que reserva a exclusividade do entendimento para os brasileiros: “O problema é que só brasileiro entende o conteúdo de “Tropa de Elite”".
A dimensão nacional-geográfica exclui liminarmente o competidor: os leitores, escrevendo sobre um filme que enfoca uma instituição dentro de uma instituição, o BOPE dentro da PMRJ, usam a moldura nacional (Brasil*) nada menos do que 23 vezes e o BOPE apenas dez. E se Alarcón fosse brasileiro? Onde ficaria essa dimensão? Se acreditarmos que o argumentum ad hominem é a forma predileta de debater de muitos leitores, outros critérios de exclusão seriam fabricados a partir da pessoa, mesmo brasileira. A ironia da exclusão espacial é não ter limites, podendo excluir os que excluem. Depois dos não-brasileiros podem ser excluídos os de fora do Estado do Rio de Janeiro, seguidos pelos não-cariocas. O passo seguinte é excluir os não–favelados. Porém, as favelas não são iguais umas às outras, nem internamente homogêneas etc.
Alguns trouxeram a pobreza e a desigualdade para o debate sobre o crime e a violência, um salto analítico. Não obstante, poucos o fizeram: a pobreza surge apenas sete vezes; “pobre” ou “pobres” mais três e a desigualdade outras três. Essa perspectiva, comum entre sociólogos e criminólogos, é minoritária entre os leitores. Porém, mesmo essa perspectiva mais complexa pode ser muito ideológica, beligerante e autoritária. A origem (ou não) da trama na pobreza e na desigualdade é algo que os leitores afirmam, mas não demonstram empiricamente nem se preocupam com isso. Por exemplo: “não punir os culpados e idolatrar a pobreza. Também é mais fácil dizer que a pobreza é que gera a violência…”. Do outro lado desse conflito ideológico, se repetem expressões de Foucault como “vocês não percebem que estão criminalizando a pobreza para justificar as atrocidades da polícia?”
Minha ambição é ver o povo brasileiro com capacidade analítica e capaz de integrar idéias novas, observações e discussões no manancial de conhecimentos disponíveis. Estamos longe.

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